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Líbano e seus vinhos: panorama geral e atual

Líbano

Estive ocupado e sem muito tempo de finalizar as postagens sobre o restante de minha viagem, de pouco a pouco vou postando o que ainda falta (ainda tenho algumas coisa que gostaria de falar sobre a Grécia e das vinícolas que visitei no Líbano).

Como o post sugere, o outro país que visitei foi o Líbano. Por que visitar o Líbano? Acredito que parte dos leitores devem estar se perguntando. Para mim, faz mais sentido a pergunta inversa: como não visitar o Líbano? Paisagens belíssimas, gastronomia singular e deliciosa, ótimos vinhos, muita história, cultura interessante e por aí vai. Além disso, tenho família no Líbano, meus avôs por parte de mãe ambos são libaneses.

Cedros de Deus, floresta protegida pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade

Cedros de Deus, floresta protegida pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade

Quanto ao vinho, o Líbano possui uma longa história na produção da bebida. Estima-se que o vinho tenha surgido na região do Cáucaso, mas sabe-se que os Fenícios foram os primeiros a produzir vinhos visando a comercialização, o que difundiu a bebida e a videira por toda região do Mediterrâneo. Considerando que grande parte das mais importantes cidades Fenícias (Sydon, Tyre, Byblos e outras) se encontravam onde hoje situa-se o Líbano, fica clara a importância do país na história do vinho e sua aptidão para a elaboração da bebida.

Atualmente o Líbano possui cerca de 40 vinícolas que produzem 8 milhões de garrafas de vinhos por ano, das quais 40% são exportadas. Embora a produção de vinhos no país tenha crescido bastante nos últimos 20 anos, a industria vinícola enfrenta alguns dilemas para sua expansão. Com um consumo per capita baixo (1 litro por habitante por ano), uma grande população muçulmana que por motivos religiosos não pode consumir bebidas alcoólicas e uma população cristã que não tem muito costume de beber vinhos, para crescer, a industria vinícola libanesa precisa investir na exportação e divulgação de seus vinhos mundo afora. Tirando os “grandes Chateaus” (Musar, Kefraya e Ksara) a maior parte dos produtores libaneses são pouco conhecidos dentro e fora de seu país, além disso o vinho libanês é visto ao redor do mundo muito mais como um produto exótico, do que como o produto de qualidade que ele realmente é.

Vinhedos no Vale de Bekaa

Vinhedos no Vale de Bekaa

O Líbano hoje produz vinhos além da tradicional região do Vale de Bekaa. Tive a oportunidade de rodar brevemente pela “Rota de Vinhos de Batroun” criada para promover o enoturismo na região e acredito ser de grande valor escrever um breve panorama das diferentes regiões produtoras existentes hoje no Líbano, que lhes apresento abaixo:

A tradicional região do Vale de Bekaa tem em Baalbek, mais especificamente no bem preservado Templo de Baco, uma prova irrefutável de sua aptidão para vinicultura e de sua importância na produção da bebida durante os tempos da dominação Romana, demonstrando que a cultura do vinho nessa terra já dura por mais de 2000 anos. Essa é hoje a maior e mais importante região produtora de vinhos do Líbano, onde estão situados os vinhedos dos mundialmente conhecidos Chateau Musar, Kefraya e Ksara, além de muitos outros produtores. Quando visitei o Líbano em 2010 fui a 4 vinícolas nessa região e todas elas tinham boas instalações para receber turistas. Infelizmente, com o conflito na Síria, o Vale de Beeka se tornou uma região relativamente perigosa, por vários fatores como a grande quantidade de refugiados que tem abrigado, a proximidade com a Síria e o fato de diversas cidades serem dominadas pelo Hezbollah, que tem mantido sua atenção redobrada por causa de toda situação. Tirando a região de Zahlé e imediações, onde a população é majoritariamente cristã, no momento não é recomendado se aventurar por essa região (mais informações no sítio do Consulado-Geral do Brasil em Beirut).

O Templo de Baco em Baalbek

O Templo de Baco em Baalbek

A segunda maior região produtora de vinhos do Líbano se localiza no norte do país, em Batroun, sendo também a que mais se expande e hoje possui oito vinícolas. Nessa região os vinhedos localizam-se em ambientes bastante diversos, entre 400 e 1400 metros de altitude, tanto em encostas voltadas para o mar, como para o interior, dando origem a vinhos tintos potentes e brancos bastante interessantes. Em termos de viticultura, bem como turísticos, Batroun tem muito potencial a ser explorado é uma região do Líbano onde o conflito na Síria, até agora, teve poucos reflexos, sendo portanto possível e segura para turistas. As três vinícolas que conheci aqui possuem estrutura de razoável a excelente para receber turistas e seus vinhos são bastante interessantes. Para quem viajar ao Líbano, mesmo nesses tempos de relativa turbulência, Batroun é um ótimo lugar para turismo e enoturismo, com belos vinhedos voltados para o mar, linda paisagem montanhosa e monumentos históricos, como a Muralha Fenícia, construída há aproximadamente 4000 anos, o Castelo de Batroun, da época das Cruzadas, e ruínas Romanas, isso além da interessante e movimentada noite que possui a cidade.

Vinhedos voltados para o mar em Batroun

Vinhedos voltados para o mar em Batroun

Na parte central do país, próximo a capital Beirut, também existem vinhedos plantados na região conhecida como Monte Líbano. A vinicultura nessa região também é bem antiga e assim como em Batroun seus vinhedos estão situados em diferentes altitudes e principalmente em encostas voltadas para o mar, sendo possível elaborar vinhos de diferentes estilos. Nessa região, em Ghazir, está situada a vinícola do Chateau Musar (que curiosamente, não possui vinhedos aqui, só no Vale de Bekaa), além de outras seis vinícolas. A única vinícola que conheço aqui é a do Chateau Musar e visitá-la é uma experiencia e tanto (em breve comento aqui no blog). Essa região do Líbano também está relativamente tranquila, é bem turística e pode ser visitada em segurança.

Pôr do sol em Harissa, na região do Monte Líbano

Pôr do sol em Harissa, na região do Monte Líbano

Por último, no sul do Líbano, mais especificamente em Jezzine, há também uma vinícola a Karam Winery, que vem surpreendendo pela qualidade de seus vinhos, demonstrando o potencial e criando perspectiva para vinicultura em mais uma região do Líbano. Apesar de ter passado por Jezzine, nunca bebi nada dessa vinícola, nem a visitei, então não sei muito o que falar. Com relação ao turismo, Jezzine é uma bela cidade histórica cercada por florestas de pinheiro-manso (Pinus pinea) e está bem tranquila apesar de toda instabilidade que existe mais ao sul do Líbano e em Sidon.

A floresta de pinheiros de Jezzine

A floresta de pinheiros de Jezzine

Como fonte adicional de informações sobre vinícolas e vinhos libaneses sugiro o site (http://www.yourwinestyle.com) e o blog (http://yourwinestyle.wordpress.com/) de Michael Karam, jornalista libanês/inglês que fez um belo trabalho em seu livro “Lebanese Wines: An Independent Guide” da editora Turning Point, que pode ser facilmente encontrado nas Virgin Stores de Beirut. Além disso, Michael escreve ótimas matérias sobre vinhos libaneses em revistas e jornais ingleses. Essas foram minhas principais fontes de informações para este post.

Infelizmente, não são muitos os vinhos libaneses que chegam até o Brasil. Além disso, os que desembarcam por aqui são em sua maioria do Vale do Bekaa e seus preços relativamente altos. Abaixo listo os produtores libaneses que chegam ao nosso mercado, sua região de origem e a importadora que os trazem:

Chateau Ksara, Vale do Bekaa, Interfood.

Chateau Musar, Vale do Bekaa (vinícola em Ghazir, Monte Líbano), Mistral.

Massaya, Vale do Bekaa, Au Vin.

Chateau Kefraya, Vale do Bekaa, Zahil.

Coteaux de Botrys, Batroun, Zahil.

Atibaia, Batroun, Zahil.

Com exceção dos últimos dois produtores citados, que eu não conheço, já bebi pelo menos uma safra da maioria dos vinhos libaneses presentes no mercado brasileiro. Como dicas, em matéria de custo benefício, eu elegeria como campeão o Massaya Silver Selection, que vejo vendendo em lojas por valores entre 75 e 95 reais. Se eu quisesse variar e gastar mais um pouco, compraria o Chateau Ksara 2008, por R$ 105,90. Já se eu quisesse gastar menos um pouco, compraria o Reserve du Couvent por R$ 62,90, ambos vendidos no site da loja virtual Todovinho.

Além desses, entre os vinhos libaneses mais baratos de nosso mercado, sugiro o Les Bretèches do Chateau Kefraya, vendido a R$ 84,00 no site da Zahil, na minha opinião, ela tá um pouco caro para o que oferece, mas vale a pena conhecer. Entre os vinhos do Chateau Ksara, sugiro fugir dos mais baratos e comprar a partir do já mencionado Reserve du Couvent (curiosidade: esse é o vinho mais vendido dentro do Líbano). Há também o Massaya Classic, geralmente encontrado entre 65 e 80 reais, que é um pouco rústico, mas bom.

Como não posso deixar de mencionar, o Chateau Musar, tanto branco como tinto, é incrível. Um vinho único, bem estiloso, pena que aqui no Brasil é só para quem tem condições de pagar R$ 195,98 na garrafa do branco ou R$ 215,60 no tinto.

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5 pensamentos sobre “Líbano e seus vinhos: panorama geral e atual

  1. Alessandra,

    Obrigado por seus elogios!
    Em termos de vinhos, o Líbano hoje é muito mais que Chateau Musar!

    Pena que aqui no Brasil há tão poucas opções e o que existe é caro…

    Alias, acabo de ter a ideia de adicionar nesse post os vinhos libaneses que vem para o Brasil. Vou fazer isso logo mais.

    Abraço,
    Jorge.

  2. Oi Jorge.
    Estou com viagem marcada para o Líbano para abril do ano que vem. Ainda não tenho certeza se vou ter coragem mesmo de ir…rsrsrs, mas, se for, ficarei uma semana por lá e não quero sair muito da região de Beirute, por questão de segurança. Você pode me dizer se esta visita à vinícola de Chateau Musar pode ser feita num bate e volta para Beirute? Há alguma empresa confiável que leva para essa visita?

    Um abraço
    André

    • André,

      A situação estando como agora é bem tranquilo você ir para o Líbano. Se não tivesse dado aquele problema todo dos EUA bombardear a Síria eu estaria voltando ontem (04/11), mas a vida é assim mesmo… Sugiro que vá monitorando a situação, leia o site do consulado e só desmarque a viagem se algo sério acontecer. Instável a região sempre foi nos últimos 30 anos (até mais), sempre tem uma possibilidade de acontecer algo a qualquer momento. Minha família tem ido para lá quase todo ano e nunca tivemos problemas, antes de 2011 então era tudo uma maravilha.

      De Beirut acho que você demora em torno de 1 hora a 1 hora e meia para chegar até a vinícola do Chateau Musar em Ghazir. Com certeza você consegue ir e voltar no mesmo dia, até em uma tarde ou manhã.
      Se tiver interesse, até em Batroun eu diria que dá para você ir de manhã, visitar uma ou duas vinícolas e voltar para Beirut no final da tarde.
      Até mesmo em Zahle daria para você ir, mas aí já é mais arriscado.

      Não conheço nenhuma companhia de turismo no Líbano que faça esse tipo de passeio. Sugiro que você faça a mesma coisa que eu fiz, alugar um táxi por um dia. Paguei 150 dólares (incluindo combustível) e fui de Amioun até Ghazir, depois rodei bastante em Batroun e voltei para Amioun já de noite.
      Há companhias de taxi confiáveis no Líbano que fazem esse tipo de serviço, alugar um taxi (com o motorista) por um dia, o que fica em geral de 100 a 180 dólares por dia, podendo cobrar a gasolina por fora. É importante que você negocie o preço (ou pelo menos uma faixa de preço) antes de fechar o táxi. Eu usei uma empresa chamada Byblos Taxi (http://www.byblostaxi.net/), não sei se eles te atendem a partir de Beirut, mas se não atenderem há outras.

      Há também a alternativa de alugar um carro e ir por conta própria, mas o trânsito no Líbano é uma loucura!

      Qualquer coisa a mais fica a vontade para perguntar!
      Abraço,
      Jorge.

  3. Pingback: Degustação de Vinhos do Líbano – RJ | Contando Vinhos

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