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Interessante: Primeira Estrada Syrah 2010

Primeira estrada

Estava bastante curioso para beber esse vinho, produzido na inusitada região cafeeira das serras do sul de Minas Gerais, mais especificamente no município de Três Corações. Como o tema desse mês da Confraria Brasileira (#CBE) é Syrah/Shiraz de qualquer país até R$ 100,00, havia comprado esse vinho para minha postagem. Mas encontrei outro Syrah mais interessante (juro, confira no dia 01/06) para postar na ocasião, decidindo abrir logo essa garrafa e matar a curiosidade.

Hoje escrevo um post um tanto diferente, gostei muito da experiência de provar esse vinho e julgo que ele mereça um texto mais longo, explicativo, com algumas impressões minhas (sejam ou não certas) sobre assuntos que vão além da garrafa.

A videira é uma planta de clima mediterrâneo, o qual tem como características básicas invernos frios e úmidos e verões quentes e secos. Na região Sul e Sudeste do Brasil, em geral, observamos a situação contrária em relação a precipitação, a estação seca é o inverno e a chuvosa o verão, como é o caso do clima de Três Corações em Minas. Considerando que, de forma natural, a maturação das uvas ocorre no verão, uma das principais barreiras climáticas encontradas para o desenvolvimento da vitivinicultura em regiões brasileiras diferentes das já tradicionais (até nas tradicionais esse problema se faz presente), é o excesso de umidade durante a fase final de maturação das uvas, provocado pelas nossas chuvas de verão, acarretando no ataque de fungos que podem comprometer a colheita inteira ou adiantá-la, forçando a realização da mesma fora do ponto correto de maturação das uvas, comprometendo a qualidade do vinho a ser gerado.

A solução que a Vinícola Estrada Real encontrou para contornar esse problema é extremamente interessante. Por meio de uma técnica de poda da videira chamada “dupla poda” eles inverteram o ciclo da planta, levando a mesma a frutificar durante a época seca (inverno), quando as condições edafoclimáticas permitem plena maturação das uvas, pois além da baixa precipitação, os dias de invernos em Três Corações – MG, em geral, são ensolarados, com temperaturas amenas e boa amplitude térmica entre o dia e a noite. Abrindo precedentes para, quem sabe, a viticultura em novos terroirs brasileiros, como regiões de serra no Paraná, São Paulo, outras regiões de Minas e até quem sabe Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Essa safra 2010 foi a primeira a ser produzida pela vinícola e demonstra satisfatoriamente ser possível produzir vinhos na região.

Na taça coloração violeta bem escura e profunda.

No nariz, se mostrou um pouco fechado no início, após uma hora na garrafa os aromas estavam melhores, atingindo plenitude depois de duas horas aberto. De intensidade razoável, os aromas lembravam frutas (framboesa), especiarias (noz moscada e pimenta), baunilha e menta.

Na boca é elegante, macio equilibrado, bem agradável, redondinho mesmo. Vinho encorpado com taninos bem presentes e agradáveis, acidez adequada (para mim faltou um pouco), intensidade e persistência razoáveis. Notas de iogurte de frutas e café com um final de boca lembrando algo tostado.

Interessante, tem seu estilo, me lembrando um pouco os Syrah franceses da região do Languedoc. Ao meu ver, o vinho é um tanto simples para o seu preço, além de faltar intensidade e persistência na boca (considerando o preço). Compartilho da opinião que li em outros sites e blogues, considerando o preço, fica devendo um pouco, até R$ 50,00 (no máximo) seria um valor mais adequado. Mas tendo em vista que é primeira safra do vinho, lançando a região para a vitivinicultura, eu diria que vale a pena experimentar. Acredito bastante na tendência de melhora do vinhos em safras seguintes, com o pessoal do vinícola conhecendo melhor o sítio (terroir) e aprimorando o trabalho na adega. Gostei e recomendo!

Outros blog e sites que provaram o vinho: EnoEventos, Pautas de Guarda, Diário de Baco, Bistrô Carioca, Academia do Vinho, Blog do Vinho IG, Enoteca, Vinhos de Corte, Vinho e Gastronomia e BebadoVinho.

Resumo do vinho:

Nome: Primeira Estrada Syrah

Vinícola: Estrada Real

Região: Três Corações – MG, Brasil.

Teor alcoólico: 13,5%

Safra: 2010

Uva: Syrah

Preço: R$ 65,00 (comprado em promoção por R$ 59,00)

Comprado em (mês/ano): Mondovino (05/13)

Bebido com (data):  Patrícia (25/05/2013)

Nota: 87/100.

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13 thoughts on “Interessante: Primeira Estrada Syrah 2010

  1. Adorei o post, super interessante e valeu a pena escrever bastante mesmo. Dupla poda é algo bem inovador e espero realmente que só traga benefícios ao vinho brasileiro. Saúde!

    Alessandra
    Blogdovinho.com

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    • Alessandra,

      Obrigado pelos elogios, realmente o vinho merece os comentários, abriu um precedente bem interessante.
      O exemplo da Vinícola Estrada Real já surtiu efeito, a partir da experiência mineira, a técnica já vem sendo aplicada em outros locais, um exemplo é a Pirineus Vinhos e Vinhedos em Goiás, conforme é dito no post do colega Orestes de Andrade do blog Pautas de Guarda, que sugiro muitíssimo a leitura (link: http://www.pautasdeguarda.com/2013/05/vinhos-de-inverno.html).

      Acredito que podemos esperar mais vinhos interessantes de regiões inusitadas no Sul e Sudeste do Brasil.

      Abraço,
      Jorge.

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  2. Pingback: #CBE / Do Marrocos: Thalvin – Alain Grillot Syrocco Syrah 2007 | Contando Vinhos

  3. Jorge, você mandou bem na descrição e na compra, paguei bem mais caro que você. Já vi a R$65,00 também na Lidador. Concordo com você, é caro em comparação com outros da mesma faixa, mas gostei dele e torço para que melhore nas safras vindouras. Reforço sua dica para quem quer conhecer e ampliar horizontes, fora a vontade de ver o Brasil inovando nesse enomundo, como os colegas do primeira estrada fizeram.
    Abraços e parabéns pelo blog!
    Felipe.

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    • Felipe,

      Li novamente seu post e concordamos bastante. Aliás, pelo o que li, as opiniões e impressões sobre esse vinho são bem convergentes entre críticos, blogueiros, etc.
      Temos que observar que nesse vinho está embutido o custo do investimento feito pelos idealizadores do projeto, que com certeza não foi pouco.
      Espero muito (e acredito também) que esse vinho melhore nas próximas safras.

      Além disso, pelo meu conhecimento na área agrária, diria que existem regiões / sítios melhores que Três Corações para a vitivinicultura utilizando essa técnica. Conforme o pessoal for descobrindo e investindo nessas áreas, acredito que podemos ter vinhos melhores que os do Sul em Minas e São Paulo e até mesmo vinhos bebíveis no Rio e Espírito Santo, isso não mencionando outros estados
      O ideal, dentre outros fatores, seria um local com amplitude térmica entre dia e noite no inverno, estação seca bem definida, predominância de dias ensolarados no inverno, solo bem drenado (de preferência cascalhento, argilo-arenoso, profundo, pobre em nutrientes, pH alcalino ou pouco ácido) e plantar o vinhedo de preferência em encosta voltada para vertente norte. Três Corações deve ser uma nota de 6 para 7 considerando esses quesitos.

      Enfim, fiquei bastante animado com as perspectivas que esse vinho criou (pelo menos na minha cabeça)! Posso até estar viajando, mas prefiro pensar que não.

      Também gostaria de lhe parabenizar por seu blog, ótimo conteúdo, boas sugestões. Vou frequentar!

      Bons vinhos!
      Abraço,
      Jorge.

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  4. Jorge, parabéns pelo post.
    Sou estudante de Agronomia na UFLA e amante de vinhos.
    Gostaria apenas de mencionar que a técnica da dupla poda, pelo que pude pesquisar, foi desenvolvida pelo pesquisador Murillo Regina da EPAMIG Uva e Vinho de Caldas/MG.
    Abraços,
    Alessandro

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  5. Pingback: Um ano de blog! Estamos entrado nas redes sociais! | Contando Vinhos

  6. Eu devo ter comprado uma garrafa estragada. Ao primeiro contato, pura decepção. Um amargor nunca esperado num vinho nacional de R$65,00, comprado no Zona Sul.
    Pensei que melhoraria com o passar das horas mas, só piorou. Ficou imbebível.
    Joguei mais de meia garrafa pelo ralo da pia. Desta vinícola não compro mais nada.

    Curtido por 1 pessoa

    • Valdir,

      Acredito sim na possibilidade de você ter pego um garrafa danificada. Pela sua descrição de um vinho amargo que piorou com o tempo, pode ser que você tenha pego uma garrafa “bouchonné” ou com aroma de rolha.
      Dá uma olhada aqui e veja se foi isso que você sentiu no vinho:
      http://www.sobrevinho.net/curiosidades/bouchonne

      Se achar que foi isso, em geral lojas especializadas e supermercados costumam a trocar vinhos com esse defeito, desde que não faça muito tempo que você tenha comprado, apresente nota fiscal e leve a garrafa ainda com o resto do vinho e rolha para comprovação.

      Também acredito que por questão de gosto pessoal o vinho não tenha te agradado. Já falei com outras pessoas que também não gostaram dele. Isso acontece e você está mais do que certo de não querer provar de novo.

      Por último, nesse meu post procurei citar diversos blogs e sites que beberam esse vinho, se consulta-los verá que em geral ninguém fala que é um grande vinho, é mais uma curiosidade por ter sido produzido em Minas Gerais e ser um vinho agradável.
      Na minha opinião, o vinho em si, acho caro pelo que oferece. Vale o preço por experimentar algo diferente.

      Abraço,
      Jorge.

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      • Jorge,

        Obrigado pelas suas explicações. Aparentemente, não se tratou de doença de rolha. O vinho não estava avinagrado, estava amargo, e não melhorou com o passar das horas.
        Já troquei vinhos, que vieram efetivamente avinagrados, que não davam margem para contestação, pois é muito desgastante voltar a loja para trocar um vinho.
        Na mesma prateleira, comprei um Merlot da Dal Pizzol, por R$49,80. Estava impecável.

        Curtido por 1 pessoa

      • Então é isso mesmo Valdir,

        Não lhe agradou e ponto. Questão de gosto.
        Pelo menos valeu para definir algo que não lhe agrada e que não voltará a comprar.

        Abraço,
        Jorge.

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